Produção de mel colorido intriga apicultores na França

Abelhas estão produzindo mel azul, verde e marrom. Sindicato acredita que restos de corantes usados em doces sejam a causa.

A produção de mel colorido está intrigando apicultores na França. Recentemente, os produtores encontraram mel em cores bastante incomuns – há mel marrom, verde e até azul. O incidente ocorreu na cidade de Ribeauvillé, na Alsácia, no nordeste do país.

Jornais franceses destacaram que, além de curiosa, a situação pode gerar grande prejuízo aos produtores, já que eles não vão conseguir vender o mel. Preocupado, o sindicato dos apicultores da cidade fez uma pesquisa para tentar descobrir a origem do mel colorido.

   Apicultor francês mostra potes de mel colorido (Foto: Vincent Kessler/Reuters)



Em uma usina de reaproveitamento de dejetos, eles encontraram grandes concentrações de produtos com mesmas cores que chamaram a atenção nas colmeias. Nessa usina, mantida pela empresa Agrivalor, restos de outros produtos são transformados em biogás, entre outros tipos de aproveitamento.

Em entrevista ao “Le Monde”, Alain Frieh, presidente do sindicato local de apicultores, acredita que o mel colorido tenha relação com um dos produtos reciclados pela empresa.

“Os recipientes contêm resíduos da confeitaria industrial dos estabelecimentos Mars”, afirmou. A multinacional produz os chocolates M&M’s, que têm corantes azuis, verdes e marrons, como os que foram encontrados no mel.

A Agrivalor não quis comentar a reportagem do “Le Monde”, mas confirmou ao jornal que “valoriza” restos da produção de doces. Ainda segundo o jornal, a empresa disse aos apicultores que “lamenta muito sinceramente a situação” e prometeu melhorar as condições de armazenamento dos dejetos.
Apicultores acreditam que o mel colorido tenha relação com produtos químicos liberados no ar  (Foto: Vincent Kessler/Reuters)Apicultores acreditam que o mel colorido tenha relação com produtos químicos liberados no ar (Foto: Vincent Kessler/Reuters)

6 construções futuristas para refugiados climáticos

     Mastodon, o arranha-céu móvel

Depois de uma enchente ou terremoto, o Mastodon fornece alojamento de emergência mais robusto do que abrigos temporários convencionais. O projeto conta com quatro macacos de grande porte em sua base que podem levantá-lo seis andares acima do nível do solo, protegendo seus moradores contra os efeitos residuais do desastre natural. A torre tem cinco elevadores, incluindo um voltado para cargas e veículos, e é equipado com paineis solares, turbinas eólicas e um sistema de captação de água da chuva para gerar energia e fornecer água para os seus residentes temporários. Este projeto inovador foi desenvolvido pelos estudantes de arquitetura Adrian Ariosa e Doy Laufer, de Los Angeles.

Abrigo da união

Após um desastre, membros de uma comunidade - especialmente familiares - sentem uma forte necessidade de se unir e se comunicar. Projetos que enfatizam a socialização, como a Esfera, podem ajudar a atender a essa necessidade. A esfera é apenas uma configuração circular de barracas conectadas com um pátio no centro. Pessoas de uma mesma família podem obter abrigo em tendas , garantindo a privacidade, mas também a convivência, mostrando que o senso de comunidade permanece intacto apesar de tudo o que eles podem ter perdido.

Tenda "mágica"

E se as equipes de resgate pudessem simplesmente atirar bolas mágicas para fora de suas aeronaves, e com isso garantir a produção de alimentos, água potável e abrigos temporários? Por mais louco que pareça, essa é a ideia do projeto de design "Casas Airdrop", esferas de 3 metros de diâmetro feitas de um material esponjoso que se expandem até 7 metros de diâmetro ao atingir áreas inundadas. Toda a água absorvida pela casa é filtrada, enquanto as sementes embutidas nas paredes começam a brotar e gerar comida. A proposta não é viável ainda, mas como tantos outros conceitos de design, poderia fornecer a base para algo que realmente funciona.

Recovery Hut

Com as mudanças climáticas em curso e o aumento de desastres naturais, a capacidade de implantar abrigos de emergência de forma rápida pode significar a diferença entre a vida e a morte para as populações afetadas. Em forma de casco, o sistema de Recuperação Hut pode ser montado por uma única pessoa em até 30 minutos, e possui quatro divisões em seu interior, além de um teto translúcido que ajuda na iluminação e protege contra mosquitos.

Metaplate, o abrigo modular

Longe de ser uma tenda descartável e frágil, o abrigo "Metaplate" projetado pelo designer Kelvin Yong, de Singapura é feito de materiais duráveis, mas barato, como papelão reciclado com resina, e pode acomodar tubulação, drenagem e outras instalações domésticas necessárias. A habitação pré-fabricada dobra-se em uma estrutura retangular, o que a torna muito fácil de transportar e montar. Por ser composto de módulos, o Metaplate pode ser configurado para criar uma variedade de abrigos para diferentes fins.

Terra da emergência

"Emergency Land" ( Terra de Emergência, no português) é uma cidade-conceito criada pelo arquiteto sul-coreano Choi Jinman e o estudante Ji Shim Yong. Trata-se de uma plataforma que se eleva sobre o mar, podendo abrigar até 11 mil habitantes. O projeto foi idealizado para Tuvalu, o pequeno conjunto de nove ilhas localizado no oceano pacífico, entre a Austrália e o Havaí, que corre o risco de submergir com o aumento do nível do mar. Nos últimos anos, as inundações constantes já vêm atrapalhando a produção de cultivos locais e a obtenção de água potável.

Comida sem ideologia



Com o aumento da demanda mundial por alimentos, o papel do setor empresarial na área de segurança alimentar cresce e, com isso, vêm à tona questões delicadas relacionadas aos malefícios do agronegócio. Problemas históricos entre pequenos e grandes agricultores ficam ainda mais evidentes, e mostram a principal fragilidade da produção de alimentos.


O colapso do comunismo arrasou a produção agrícola da antiga União Soviética. O campo empobreceu-se e a região passou a importar comida. Passadas duas décadas, ocorreu uma reviravolta. Agora, daquelas terras advêm 15% das exportações globais de grãos alimentícios. E vai melhorar. 

Sem mágica. O fenômeno econômico contou com o apoio do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (Berd). Países como a Rússia, a Ucrânia e o Casaquistão passaram a receber investimentos de grandes empresas europeias que, prejudicadas com a crise em sua origem, se tornaram ávidas por novos negócios. Acabaram encontrando, não muito distantes, fartas terras de excelente qualidade, ociosas e baratas, com mão de obra disponível ao lado. Aquecida pela Ásia, a demanda mundial de produtos agrícolas abriu a janela de oportunidade para soerguer o combalidoLeste Europeu. 

Essa revolução produtiva nos territórios desorganizados pelo fracasso comunista mereceu um encontro de negócios, realizado na Turquia, no início de setembro. Dele participaram executivos de empresas particulares e de instituições públicas interessados na dinamização da Europa, como o Berd e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Seus dirigentes, entusiasmados com os resultados verificados na reunião, redigiram um artigo, de enorme repercussão, publicado na edição europeia do Wall Street Journal. 

No texto, José Graziano da Silva, diretor-geral da FAO, e Suma Chakrabarti, presidente do Berd, destacaram a importância das "dinâmicas e eficientes empresas privadas que transformaram aqueles países, após o fracasso de suas fazendas coletivas, em gigantescos exportadores de grãos". Reconheceram a realidade. Disseram mais. Afirmaram os dois altos dirigentes internacionais que "a verdade, simples, é que o mundo precisa de mais comida, e isso significa mais produção". 

Tomando como base os resultados positivos verificados no Leste Europeu, a FAO e o Berd recomendaram que os países emergentes da Europa, da Ásia e do Norte da África, como também os do Ocidente, fortaleçam o papel do setor empresarial na segurança alimentar global. Adotando políticas econômicas corretas, os investimentos privados conseguirão, nas palavras deles, "fecundar a terra", tornando mais fácil a vida para os famintos do mundo. 

Tudo tão óbvio. Mas a mensagem desagradou profundamente à Via Campesina, organização articulada pelo MST e seus assemelhados mundo afora. Autoproclamados defensores dos camponeses, escreveram uma nota dizendo ter recebido "com indignação e medo" o artigo conjunto do diretor-geral da FAO e do presidente do Berd. E arremataram: "O que a agricultura e o planeta necessitam atualmente é justamente o contrário do que foi proposto pelos senhores Graziano da Silva e Chakrabarti". Caramba. 

Qual o motivo da polêmica? A preservação do modo de vida camponês. 

Acredita a Via Campesina que somente os pequenos produtores rurais - apelidados no Brasil de"agricultores familiares" - sejam capazes de alimentar a humanidade. Argumenta ainda que o avanço da produção capitalista no campo - o chamado "agronegócio" - tem aumentado a pobreza no mundo, destruindo a capacidade de emprego, e provocado a crise alimentar das últimas décadas. Só tragédia. Conclusão: apoiar as empresas europeias, em sua expansão para o leste, significa exterminar a agricultura camponesa, promovendo o pior. 

O assunto ganhou destaque na imprensa nacional pelo fato de o diretor-geral da FAO, o agrônomo brasileiro José Graziano, ser um conhecido petista, dileto amigo, e ex-ministro do Programa Fome Zero, do Lula. Para o MST, ele cometeu uma heresia ideológica, algo como uma capitulação ao grande capital. Em outras palavras, se você é, ou se julga, da "esquerda", está impedido de reconhecer a vantagem da produção empresarial, integrada e tecnológica, no campo. Precisa continuar amarrado ao passado, louvando os pobres camponeses, mesmo que isso signifique baixa produtividade e vida miserável. Coisa medieval. 

Age corretamente quem se preocupa com os agricultores familiares. Despreparados, fracos financeiramente, nem sempre eles acompanham o ritmo empreendedor das novas tecnologias agrícolas. Acabam ficando para trás no processo de desenvolvimento. Por isso cabe aos governos propiciar condições adequadas de competitividade aos pequenos do campo. No Brasil, graças ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), lançado no governo de Fernando Henrique Cardoso, grupos importantes de produtores obtiveram, com o tempo, ganhos tecnológicos significativos. Conquistaram, geralmente integrados às grandes cooperativas, vantagens econômicas. Subiram na vida. 

Comida não tem ideologia. Os estudos da FAO estimam que até 2050 a demanda mundial por alimentos aumentará, no mínimo, 60%, bem acima do crescimento populacional. Será puxado o consumo popular pelo processo de urbanização e pelo ganho de renda das famílias pobres. Sem forte aumento na oferta de alimentos, destacando-se as proteicas carnes, haverá elevação dos preços internacionais da comida. Ocorrerá, por consequência, piora nas restrições alimentares no mundo, que hoje atingem 1 bilhão de pessoas. 

Cantava Cazuza: "A tua piscina está cheia de ratos/ tuas ideias não correspondem aos fatos". A contemporaneidade observada nos territórios agrícolas da ex-União Soviética assemelha-se à transformação cultural e produtiva da China. Cuba também não escapa do desiderato. Com sua atrasada ideologia, a Via Campesina/MST condena os agricultores à pobreza. 

Para destrinchar de vez a polêmica talvez fosse o caso de perguntar aos próprios camponeses russos qual caminho preferem. Alguém duvida da resposta?

*Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo em 21/08/2012, na página A2 - Espaço Aberto.


Grande Barreira de Corais à beira do colapso: quem culpar?

Estrelas-do-mar “famintas”, tempestades e acidificação dos oceanos reduziram pela metade a maior cobertura de corais do mundo, na Austrália. Mas há ainda um 4º fator – a negligência.

A maior barreira de corais do planeta vive uma crise ambiental sem precedentes. Relatório recente mostra que a Grande Barreira de Corais Australiana já perdeu mais da metade de sua cobertura(50,7%) nos últimos 27 anos. E, se nada for feito na próxima década, podem restar apenas 5% da formação no ano de 2022, diz o documento do Instituto Australiano de Ciência Marinha, que sintetizou mais de 2 mil trabalhos científicos sobre o assunto. 

Estendendo-se por mais de 2.000 quilômetros ao longo da costa do estado de Queensland, a Grande Barreira de Corais é composta por quase três mil pequenos recifes e mais de 900 ilhas nooceano Pacífico. Atualmente, é lar de 400 espécies de corais, 1.500 espécies de peixes, 4.000 espécies de moluscos e animais em risco de extinção, como o peixe-boi e a tartaruga verde. 

Como é possível que esse paraíso natural, declarado Patrimônio Mundial da Humanidade em 1981 e que gera cerca de 5 bilhões de dólares em turismo para a economia australiana, esteja desaparecendo? De acordo com a pesquisa, publicada na revista americana Proceedings of the National Academy of Sciences, três fatores principais explicam a redução alarmante. 

Mudanças climáticas respondem por 48% da degradação da barreira. Desde 1985, 34 ciclones atingiram a região carregando consigo toneladas de sedimento e resíduos tóxicos de atividades industriais e agrícolas da terra para o mar. 

O segundo fator é a explosão de uma população de estrelas-do-mar da espécie Acanthaster púrpura, também conhecida como "coroa de espinhos", que literalmente devora os corais. Já a terceira pressão ambiental vem da acidificação dos oceanos, fenômeno desencadeado pelo aumento da concentração de CO2 na atmosfera. Como consequência, os corais ficam esbranquiçados e quebradiços e acabam morrendo. 

Mas há ainda um quarto fator que contribui para o colapso da Grande Barreira: a negligência das autoridades públicas. Depois do alerta dos cientistas, o governo australiano admitiu que fechou os olhos às ameaças aos corais. "Todos levamos a culpa por não termos feito o suficiente e agora precisamos nos concentrar em garantir que podemos consertar isso", disse o ministro do Meio Ambiente, Tony Burke, ontem à noite na televisão australiana ABC. 

O problema do surto de populações de estrelas do mar que se alimentam dos corais foi registrado pela primeira vez em 1962 e, desde então, repete-se a cada 15 anos. Para controlar a ação predatória, mergulhadores injetam uma proteína nas estrelas do mar para matá-las, uma a uma. Mas é preciso avançar nesse trabalho. 

"Não dá para evitar as tormentas, mas podemos deter as estrelas-do-mar. Se conseguirmos isso, daremos uma maior oportunidade à Barreira para que se adapte ao aumento da temperatura dos mares e à acidificação dos oceanos", afirma a pesquisa do Instituto Australiano de Ciência Marinha.

Na trilha sustentável dos incas

Na época de hoje, onde a busca pelo desenvolvimento sustentável traduz a necessidade de convivermos em equilíbrio com a natureza, é importante recuperarmos a memória da existência de uma civilização que nos antecedeu no continente sul-americano e que há oito séculos já praticava com maestria os caminhos da sustentabilidade.

"Encontramos esses reinos em tal bom estado, e os incas os governavam de maneira tão sábia, que entre eles não havia um ladrão ou um viciado, não havia tampouco pessoas imorais. Os homens tinham ocupações honestas e úteis. As terras, florestas, minas, pastos, casas e todos os tipos de produtos eram controlados e distribuídos de tal forma que cada um sabia o que lhe pertencia, sem que outro tomasse ou ocupasse algo alheio, ou fizesse queixas a respeito... O motivo que me obriga a fazer essas declarações é a libertação da minha consciência, visto que me considero culpado. Pois destruímos, com nosso mau exemplo, as pessoas que tinham tal governo e também o que era desfrutado por esses nativos." 

Essas palavras foram escritas em 1589 por Mancio Serra de Leguisamo. Ele fazia parte das tropas que acompanharam o colonizador espanhol Francisco Pizarro na invasão e conquista do território inca no Peru. 

No século 14, o império inca dominava cerca de 20 milhões de pessoas, espalhadas por um vasto território, que englobava terras desde o sul da Colômbia e o extremo norte do Equador, todo o Peru e a Bolívia, o noroeste da Argentina e o norte do Chile. A capital do império era a atual cidade de Cusco (o umbigo do mundo, em quéchua, idioma mais falado por eles). O poder era centralizado na figura de um soberano, denominado inca (o filho do Sol). Com ampla autoridade, ele era considerado quase um deus naquela sociedade. 

Sob a liderança do inca Pachacuti, que chegou ao poder em 1438, Cusco passou a ser considerada o centro espiritual e político do império. Entre as suas realizações, está a arquitetura, a construção de estradas, pontes e engenhosos sistemas de irrigação. 

Os incas não usavam dinheiro; eles faziam escambos, por meio dos quais mercadorias eram trocadas. Mesmo o trabalho era remunerado com mercadorias e comida. Serviam de moedas de troca também sementes de cacau e conchas coloridas, que eram consideradas de grande valor. 

AGRICULTURA EM SINCRONIA COM OS CICLOS NATURAIS 
Estima-se que os incas cultivavam cerca de 700 espécies vegetais. A chave do sucesso da agricultura inca era a existência de estradas e trilhas que possibilitavam uma boa distribuição das colheitas numa vasta região. As principais culturas vegetais eram batata, milho, pimenta, algodão, tomate, amendoim, mandioca e um grão de alto valor nutritivo conhecido como quinua, que hoje virou febre entre os brasileiros. 

O plantio era feito em terraços, onde usavam a adiantada técnica das curvas de nível, sendo os primeiros a adotar o sistema de irrigação. Varas afiadas e arados revolviam o solo. As lhamas transportavam as colheitas e também forneciam lã, para fazer tecidos, couro e carne. 

As técnicas agrícolas desenvolvidas pelos incas surgiram da necessidade de criar áreas de cultivo que superassem os problemas de abastecimento de água, erosão dos solos e a instabilidade climática, num território caracterizado por uma geografia extremamente acidentada e a existência de uma grande variedade de zonas ecológicas. Os terraços erguidos nas encostas das montanhas não apenas obedeciam a necessidades de caráter prático como também a motivações estéticas, simbólicas e religiosas. 

A sincronia entre os ciclos naturais, os estelares e as atividades humanas foi a grande marca dessa civilização. A observação do movimento solar, da Lua e das estrelas permitiu determinar uma relação entre os astros e os períodos de plantio, de colheita e das atividades de pecuária. Para os incas, o solstício de inverno, no dia 21 de junho, marcava o tempo do renascimento do Sol e o da revitalização do mundo, enquanto que o solstício de verão, no dia 22 de dezembro, marcava a maturidade. 

Os incas eram extremamente religiosos e consideravam o Sol e a Lua entidades divinas - às quais suplicavam suas bênçãos, fosse para melhores colheitas, fosse para o êxito em combates com grupos rivais.
O deus Sol (Inti) era o deus masculino e eles acreditavam que o rei descendia dele. Atribuíam a esse deus qualidades espirituais transmitidas à mente pela mastigação da folha de coca, que também servia de nutrição e fonte de energia. 

Os incas criaram uma trilogia representada por condor, puma e serpente, animais sagrados considerados guardiões dos três mundos existentes. O condor (representante da paz, mensageiro que carrega os espíritos mortos desta vida para a vida dos deuses) era o guardião do mundo de cima. O puma (representante da força e do espírito de cada pessoa) protegia o mundo do meio. Já a serpente (ligada à inteligência humana) cuidava do mundo de baixo. 

Não havia um sistema de escrita. Para gerir o império, empregavam-se os quipos, cordões de lã ou outro material em que eram codificadas mensagens. O quipo constituía-se de um cordão ao qual se ligavam cordões menores de diferentes cores, tanto paralelamente quanto partindo de um ponto comum. Os números eram dados pelos nós e as significações pelas cores. 

Os quipos eram utilizados para manter estatísticas permanentemente atualizadas. Regularmente, procedia-se a recenseamentos da população em que era contabilizado o número de habitantes por idade e sexo. Registrava-se ainda o número de cabeças de gado, os tributos pagos por outros povos ou a eles devidos, os movimentos de entrada e saída de mercadorias dos armazéns estatais etc. Com os registros, procurava-se equilibrar a oferta e a procura, numa tentativa de planificação da economia. 

ARQUITETURA EM EQUILÍBRIO COM A NATUREZA 
Os incas construíram templos sagrados nas encostas íngremes das montanhas andinas. Enormes blocos de pedras eram arrancados das pedreiras, desbastados e entalhados com instrumentos de pedra, e depois arrastados por roletes de madeira ou sobre trenós puxados por cordas, por meio de engenhosos sistemas de rampas. A arquitetura inca não só se ocupou do desenho de seus monumentos em função de seus requerimentos práticos como também em função dos símbolos e dos conteúdos mágicos que deviam representar. Para alcançar esse propósito, os incas aproveitavam as formas naturais presentes nas montanhas e nas planícies para criar os terraços, as plataformas cerimoniais, os observatórios astronômicos, as habitações, os canais e fontes de água. 

As ruínas da cidade de Machu Picchu, encravada entre montanhas a 2 350 m de altitude, no vale do rio Urubamba, é o testemunho mais deslumbrante da capacidade humana de conviver em equilíbrio com a natureza. 

AS MINAS DE SAL DE MARAS 
Desde a época dos incas, os habitantes de Maras, no Peru, coletam as águas que caem de um olho-d¿água chamado Qoripujio em tanques, construídos nas encostas das montanhas, para que evapore. O sal assim produzido é vendido nos mercados de Cusco, que fica a 50 km dali. Os terrenos salinos de Maras remontam à Era Incaica. são 3 mil poços explorados num regime de cooperativa. A água supersaturada de sal emerge de uma corrente morna natural subterrânea. O fluxo é direcionado para um complexo sistema de pequenos canais por onde a água escorre formando de pequenas lagoas em forma de escadas. Aquecida pelo sol, a água evapora e após alguns dias o sal é raspado e recolhido. 

O LEGADO DOS INCAS 
Conhecer as ruínas do Império Inca é uma oportunidade para os habitantes da América do Sul elevar sua autoestima. O estigma que tem caracterizado os países sul-americanos como subdesenvolvidos frente aos países do primeiro mundo se desfaz com a revelação da existência de uma civilização extremamente desenvolvida que nos antecedeu, e é um exemplo da nossa capacidade de viver em harmonia com a natureza e de forma sustentável. 

Célio Bermann
Arquiteto e professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP