Na trilha sustentável dos incas

Na época de hoje, onde a busca pelo desenvolvimento sustentável traduz a necessidade de convivermos em equilíbrio com a natureza, é importante recuperarmos a memória da existência de uma civilização que nos antecedeu no continente sul-americano e que há oito séculos já praticava com maestria os caminhos da sustentabilidade.

"Encontramos esses reinos em tal bom estado, e os incas os governavam de maneira tão sábia, que entre eles não havia um ladrão ou um viciado, não havia tampouco pessoas imorais. Os homens tinham ocupações honestas e úteis. As terras, florestas, minas, pastos, casas e todos os tipos de produtos eram controlados e distribuídos de tal forma que cada um sabia o que lhe pertencia, sem que outro tomasse ou ocupasse algo alheio, ou fizesse queixas a respeito... O motivo que me obriga a fazer essas declarações é a libertação da minha consciência, visto que me considero culpado. Pois destruímos, com nosso mau exemplo, as pessoas que tinham tal governo e também o que era desfrutado por esses nativos." 

Essas palavras foram escritas em 1589 por Mancio Serra de Leguisamo. Ele fazia parte das tropas que acompanharam o colonizador espanhol Francisco Pizarro na invasão e conquista do território inca no Peru. 

No século 14, o império inca dominava cerca de 20 milhões de pessoas, espalhadas por um vasto território, que englobava terras desde o sul da Colômbia e o extremo norte do Equador, todo o Peru e a Bolívia, o noroeste da Argentina e o norte do Chile. A capital do império era a atual cidade de Cusco (o umbigo do mundo, em quéchua, idioma mais falado por eles). O poder era centralizado na figura de um soberano, denominado inca (o filho do Sol). Com ampla autoridade, ele era considerado quase um deus naquela sociedade. 

Sob a liderança do inca Pachacuti, que chegou ao poder em 1438, Cusco passou a ser considerada o centro espiritual e político do império. Entre as suas realizações, está a arquitetura, a construção de estradas, pontes e engenhosos sistemas de irrigação. 

Os incas não usavam dinheiro; eles faziam escambos, por meio dos quais mercadorias eram trocadas. Mesmo o trabalho era remunerado com mercadorias e comida. Serviam de moedas de troca também sementes de cacau e conchas coloridas, que eram consideradas de grande valor. 

AGRICULTURA EM SINCRONIA COM OS CICLOS NATURAIS 
Estima-se que os incas cultivavam cerca de 700 espécies vegetais. A chave do sucesso da agricultura inca era a existência de estradas e trilhas que possibilitavam uma boa distribuição das colheitas numa vasta região. As principais culturas vegetais eram batata, milho, pimenta, algodão, tomate, amendoim, mandioca e um grão de alto valor nutritivo conhecido como quinua, que hoje virou febre entre os brasileiros. 

O plantio era feito em terraços, onde usavam a adiantada técnica das curvas de nível, sendo os primeiros a adotar o sistema de irrigação. Varas afiadas e arados revolviam o solo. As lhamas transportavam as colheitas e também forneciam lã, para fazer tecidos, couro e carne. 

As técnicas agrícolas desenvolvidas pelos incas surgiram da necessidade de criar áreas de cultivo que superassem os problemas de abastecimento de água, erosão dos solos e a instabilidade climática, num território caracterizado por uma geografia extremamente acidentada e a existência de uma grande variedade de zonas ecológicas. Os terraços erguidos nas encostas das montanhas não apenas obedeciam a necessidades de caráter prático como também a motivações estéticas, simbólicas e religiosas. 

A sincronia entre os ciclos naturais, os estelares e as atividades humanas foi a grande marca dessa civilização. A observação do movimento solar, da Lua e das estrelas permitiu determinar uma relação entre os astros e os períodos de plantio, de colheita e das atividades de pecuária. Para os incas, o solstício de inverno, no dia 21 de junho, marcava o tempo do renascimento do Sol e o da revitalização do mundo, enquanto que o solstício de verão, no dia 22 de dezembro, marcava a maturidade. 

Os incas eram extremamente religiosos e consideravam o Sol e a Lua entidades divinas - às quais suplicavam suas bênçãos, fosse para melhores colheitas, fosse para o êxito em combates com grupos rivais.
O deus Sol (Inti) era o deus masculino e eles acreditavam que o rei descendia dele. Atribuíam a esse deus qualidades espirituais transmitidas à mente pela mastigação da folha de coca, que também servia de nutrição e fonte de energia. 

Os incas criaram uma trilogia representada por condor, puma e serpente, animais sagrados considerados guardiões dos três mundos existentes. O condor (representante da paz, mensageiro que carrega os espíritos mortos desta vida para a vida dos deuses) era o guardião do mundo de cima. O puma (representante da força e do espírito de cada pessoa) protegia o mundo do meio. Já a serpente (ligada à inteligência humana) cuidava do mundo de baixo. 

Não havia um sistema de escrita. Para gerir o império, empregavam-se os quipos, cordões de lã ou outro material em que eram codificadas mensagens. O quipo constituía-se de um cordão ao qual se ligavam cordões menores de diferentes cores, tanto paralelamente quanto partindo de um ponto comum. Os números eram dados pelos nós e as significações pelas cores. 

Os quipos eram utilizados para manter estatísticas permanentemente atualizadas. Regularmente, procedia-se a recenseamentos da população em que era contabilizado o número de habitantes por idade e sexo. Registrava-se ainda o número de cabeças de gado, os tributos pagos por outros povos ou a eles devidos, os movimentos de entrada e saída de mercadorias dos armazéns estatais etc. Com os registros, procurava-se equilibrar a oferta e a procura, numa tentativa de planificação da economia. 

ARQUITETURA EM EQUILÍBRIO COM A NATUREZA 
Os incas construíram templos sagrados nas encostas íngremes das montanhas andinas. Enormes blocos de pedras eram arrancados das pedreiras, desbastados e entalhados com instrumentos de pedra, e depois arrastados por roletes de madeira ou sobre trenós puxados por cordas, por meio de engenhosos sistemas de rampas. A arquitetura inca não só se ocupou do desenho de seus monumentos em função de seus requerimentos práticos como também em função dos símbolos e dos conteúdos mágicos que deviam representar. Para alcançar esse propósito, os incas aproveitavam as formas naturais presentes nas montanhas e nas planícies para criar os terraços, as plataformas cerimoniais, os observatórios astronômicos, as habitações, os canais e fontes de água. 

As ruínas da cidade de Machu Picchu, encravada entre montanhas a 2 350 m de altitude, no vale do rio Urubamba, é o testemunho mais deslumbrante da capacidade humana de conviver em equilíbrio com a natureza. 

AS MINAS DE SAL DE MARAS 
Desde a época dos incas, os habitantes de Maras, no Peru, coletam as águas que caem de um olho-d¿água chamado Qoripujio em tanques, construídos nas encostas das montanhas, para que evapore. O sal assim produzido é vendido nos mercados de Cusco, que fica a 50 km dali. Os terrenos salinos de Maras remontam à Era Incaica. são 3 mil poços explorados num regime de cooperativa. A água supersaturada de sal emerge de uma corrente morna natural subterrânea. O fluxo é direcionado para um complexo sistema de pequenos canais por onde a água escorre formando de pequenas lagoas em forma de escadas. Aquecida pelo sol, a água evapora e após alguns dias o sal é raspado e recolhido. 

O LEGADO DOS INCAS 
Conhecer as ruínas do Império Inca é uma oportunidade para os habitantes da América do Sul elevar sua autoestima. O estigma que tem caracterizado os países sul-americanos como subdesenvolvidos frente aos países do primeiro mundo se desfaz com a revelação da existência de uma civilização extremamente desenvolvida que nos antecedeu, e é um exemplo da nossa capacidade de viver em harmonia com a natureza e de forma sustentável. 

Célio Bermann
Arquiteto e professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP